Tenho uma sensação estranha cada vez que vejo uma de nossas seleções de futebol, de vôlei masculino ou feminino, de basquete, jogando pela TV.
Sempre arrepiado, corro os olhos pela multidão cantando o hino nacional. Em lágrimas, sei que naquele momento estou cantando para algo que é eterno, muito maior que ideologias ou políticas: minha pátria. E não confundo a pátria que me emociona, com seus governantes. Minha pátria é formada pelas almas, corações, sentidos e emoções de 180 milhões de pessoas.
Naquele momento, sou PT, PSDB, Arena e MDB.
Sou corinthiano, flamenguista, gremista e atleticano.
Sou católico, protestante, budista e umbandista.
Sou preto, sarará, amarelo e branquelo.
Sou médico, engenheiro, advogado e padeiro.
Sou alto, baixinho, magro e gordinho.
Sou homem, mulher, criança e jovem.
Sou trabalhador, vagabundo, mocinho e bandido.
Sou sensação, emoção, inteligência e motivação.
Sou rico, pobre, polícia e bombeiro.
Sou, inteiro, completo, irremediavelmente brasileiro.
E me questiono quantos têm coragem de falar o que eu estou falando aqui, com orgulho. Me questiono a razão de precisar de uma Copa do Mundo, um locutor berrando, grupos folclóricos falsamente entusiasmados e propagandas bonitinhas para dar a nossos filhos a chance de sentir essas mesmas emoções.
Quando criança aprendi o hino Nacional, o da Bandeira, o da Independência. E aprendi que são bonitos.
Meus cadernos escolares tinham na contra capa o mapa do Brasil. E as letras dos hinos. Eu cantava o hino no páteo, com a mão no coração, enquanto a bandeira era hasteada.
Eu desfilava no Sete de Setembro, sonhando tocar na fanfarra. Pelé, Rivelino, Tostão e Gerson não deixavam dúvidas sobre o melhor futebol do mundo.
Eu estava pronto para aceitar valores, conceitos, exemplos. Eu respeitava meus mestres. Eu tinha...ingenuidade.
Aí cresci e disseram que eu era um inocente útil. E me lembram a cada minuto que não há razão para ter orgulho de ser brasileiro.
Corro para me proteger nos meus velhos ícones. E encontro os cadernos de meus filhos com Tiazinhas e Picachus na contra capa. Minha seleção continua sendo a melhor do mundo, mas morro de medo da China e da Costa Rica...
É...não adianta achar que antes era melhor. Era apenas diferente.
A gente nascia em casa, não na maternidade. Os aniversários eram comemorados em casa, não no buffet. Os velórios eram feitos em casa, não no cemitério. A gente fazia amor em casa, não no motel.
Mas tem coisas que não deviam mudar.
Aquele arrepio que eu citei no começo deste texto, por exemplo. Saber que pátria é uma coisa, e governo é outra.
Revoltar-se contra a mediocridade. Não aceitar tudo que é dito. Pensar criticamente. Emocionar-se com seu país. Fazer acontecer. Aceitar que o outro pode estar certo. Cumprir o que prometemos...isso é básico.
Como básico é valorizar o que é nosso, sem todo esse rancor, desesperança e descrédito dos brasileiros com os brasileiros.
Como básico é pensar, atividade esquecida neste amargo Brasil do novo milênio.
Por isso, quando ligamos a Tv e vemos um time de brasileiros convergindo para si toda a energia e esperança de um povo, vivemos esta catarse.
A experiência rara em que todos focam um único objetivo, discutem como acertar, sugerem como melhorar. Todos torcem a favor. E a gente vê responsabilidade, respeito, amor próprio, criatividade, talento, energia, esperança e fé.
É esse o Brasil dos meus sonhos.
O Brasil que me emociona ...
*** Luciano Pires - autor do, BRASILEIROS POCOTÓ - Reflexões sobre a Mediocridade que Assola o Brasil, já na sua 5º edição. O conteúdo de seus textos tranformou-se em palestras bem humoradas, provocativas e movimentadas.